A descoberta da primeira pedreira e a instalação do primeiro tear em Prosperidade
Desde tempos remotos, o mármore tem sido símbolo de poder e riqueza na sociedade. Ao longo dos séculos, palácios majestosos construídos com essa pedra nobre representaram sofisticação e distinção. Mesmo nos dias atuais, a demanda por essa exuberante rocha continua alta, sendo associada a ambientes de requinte e elegância.
Com as incertezas da agricultura em meados do século XX, principalmente no setor cafeeiro, novas alternativas econômicas começaram a surgir na região sul do Espírito Santo. No ano de 1957, foi descoberta a primeira pedreira de mármore branco do Espírito Santo, em Prosperidade, município de Vargem Alta. A descoberta ocorreu graças ao espírito empreendedor de Ogg Dias de Oliveira, carioca que passava férias na casa dos familiares de sua esposa, Chiquinha Deprá. Identificando ricas jazidas de mármore branco na região montanhosa, ele levou amostras para análise no Rio de Janeiro. Após aprovação, a pedra encontrou mercado nas marmorarias daquele estado, consolidando o Espírito Santo como um grande produtor e exportador dessa rara matéria-prima.
Com a qualidade das rochas encontradas, os senhores Orlando Lopes da Costa e Sílvio Fernandes, marmoristas cariocas, apoiaram o projeto do jovem Ogg. Juntamente com Horácio Scaramussa, que extraiu o primeiro bloco em terras capixabas, participaram da operação de abertura da primeira pedreira e, posteriormente, na implantação da primeira serraria de mármore branco em Prosperidade. Iniciava-se assim a primeira fase do setor de extração de rochas ornamentais no Espírito Santo, que durou até o início dos anos 1970, com a descoberta do granito, impulsionando ainda mais o setor.
Sobre a importância desses fatos, relatou um importante jornal da época:
“Um dia em julho de 1957, o primeiro caminhão transportou de Cachoeiro para a capital da República, o primeiro bloco de mármore, simbolizando nossa mensagem de boa vizinhança e de progresso. A partir desse dia, Prosperidade ganhou prestígio. Não era somente um lugarejo: era mais. Era a terra do mármore branco. Mármore que, hoje, se constitui em sangue de desenvolvimento, alicerçando a nossa economia, proporcionando aos filhos de Cachoeiro um motivo novo de orgulho natural e justo” (1).
Esse noticiário menciona um dos marcos da exploração deste mineral no Espírito Santo. Após ganhar o mercado do Rio de Janeiro, então capital do país, o mármore branco de Prosperidade foi amplamente utilizado na construção de Brasília, cidade mundialmente conhecida pelas impressionantes obras de arquitetura moderna projetadas por Oscar Niemeyer. Assim, Prosperidade foi noticiada para todo o país e exterior, solidificando a economia sul-capixaba.
Seis anos após a abertura da primeira pedreira, e com a necessidade de iniciar o beneficiamento da rocha, foi construído, em 1963, o primeiro tear. Este tinha estrutura de ferro e roda de madeira, que elevava a água do rio Fruteiras, movimentando as lâminas e transformando os blocos de mármore em chapas. Embora as serradas fossem bastante improvisadas, isso desencadeou um processo de desenvolvimento que persiste até hoje.
Com a necessidade de aprimorar as serradas e aumentar a qualidade das pedras, o Sr. José Dias foi enviado ao Estado de São Paulo. Durante 30 dias de aprendizado, capacitou-se na função de serrador, trazendo novas tecnologias para a produção. Nesta mesma época, chegou da Itália o Sr. Lauro Conttepelle, técnico com longa experiência nas pedreiras italianas de Carrara, que fez o primeiro corte com fio helicoidal nas rochas em Prosperidade. Isso elevou a qualidade e alavancou ainda mais a produção, tanto pela precisão no talho da pedra quanto pela economia de tempo.
Com a chegada, em 1973, da rede de energia elétrica à localidade, o setor de rochas ganhou forte impulso. Até então, tanto as pedreiras quanto as serrarias usavam máquinas movidas a óleo diesel, o que dificultava a expansão do setor. Neste mesmo ano, foi reaberta a estrada Vargem Alta x Prosperidade, facilitando o escoamento da crescente produção das serrarias e pedreiras de mármore e granito.
O ciclo de produção do setor apresenta três etapas distintas: a extração (retirada dos blocos de mármore ou granito de acordo com o padrão do exportador), o desdobramento ou beneficiamento primário (fase em que o bloco é serrado em chapas) e o beneficiamento final (a chapa ou outro produto recebe o polimento específico através de equipamento próprio).
Atualmente, o Estado do Espírito Santo é referência mundial em mármore e granito, liderando a produção nacional de rochas. O município de Vargem Alta, é um dos principais produtores, no sul do estado, com uma variedade de cores, beleza e qualidade acima da média.
O mármore capixaba é encontrado principalmente nos municípios da região Sul do Estado, exibindo uma ampla variedade de cores que incluem rosa, branco, verde, pinta verde, chocorosa (mistura de chocolate com rosa), marrom e o tão cobiçado branco absoluto, a variedade mais pura de cor branca existente. Em suas origens, a extração do mineral era feita de maneira rústica, com o uso de ferramentas simples, como enxadas e pás, seguida pelo transporte dos blocos até a estrada de ferro. No entanto, com o avanço tecnológico, modernas máquinas assumiram esse papel, garantindo mais segurança aos profissionais envolvidos. Atualmente, o Espírito Santo se destaca como maior produtor de mármores do país.
O prestígio do mármore capixaba ultrapassou fronteiras e conquistou reconhecimento internacional. Presente em grandes obras, como a imponente Praça dos Três Poderes em Brasília – que abriga os prédios do Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal, a pedra extraída nas primeiras pedreiras de Prosperidade ainda encanta por sua beleza e nobreza, destacando-se por sua versatilidade e elegância. Utilizada em revestimentos, pavimentações, peças de mobiliário e arte, ela já foi até mesmo a preferida de escultores estrangeiros, que a consideravam a melhor para a confecção das peças.
(1) JOEL PINTO in Revista de Cachoeiro, julho de 1958.



