No início do século XX, a imigração italiana deixou marcas indeléveis na paisagem e na cultura de Vargem Alta. Os imigrantes, trazendo consigo seus costumes e saberes, encontraram na região um clima ameno e propício para a criação de bichos-da-seda. Assim, a produção sericícola ganhou raízes nessa terra montanhosa. E, em meio às montanhas e à brisa fresca do Espírito Santo, a pequena Vargem Alta viu nascer uma tradição que se entrelaçaria com sua identidade: a sericicultura.

No longínquo ano de 1919, o Estado capixaba criou uma estação sericícola em Vargem Alta. Essa iniciativa não apenas marcou o cenário local, mas também lançou as bases para uma atividade que transformaria a economia e a cultura da região. A sericicultura, ou seja, a produção de seda a partir dos casulos do bicho-da-seda, encontrou solo fértil entre as montanhas serranas.
Estacas de amoreiras
Em 1920, Vargem Alta recebeu 29.200 estacas de amoreira do Estado. Essas árvores eram a base para o estabelecimento da sericicultura em escala industrial. Os casulos, como pequenos cofres de seda, guardavam a promessa de fios brilhantes e tecidos delicados.
Investimentos e Reconhecimento
O governo estadual daquele ano, Bernardino de Souza Monteiro, reconheceu o potencial dessa atividade. Investimentos significativos foram feitos: plantações de amoreiras, aquisição de estacas e bichos-da-seda, maquinários e contratação de funcionários. Vargem Alta se tornou um epicentro dessa trama de fios.
Em 1937, o governador do Estado, Capitão João Punaro Bley, não economizou suas palavras para referenciar a Estação Sericícola de Vargem Alta na Assembleia Legislativa, conforme o Blog Vitrine Capixaba:
A Estação Sericícola de Vargem Alta é uma das maiores realizações do governo em prol do desenvolvimento da economia do Estado. Em 1936, realizamos ali uma série de obras, algumas de vulto, concluindo, assim, definitivamente, as instalações necessárias à montagem dos maquinismos para o pleno funcionamento. Esses maquinismos destinados aos trabalhos de fiação e de tecelagem já foram encomendados diretamente da Itália e deverão ser instalados antes do fim deste ano. Com essas instalações, será a nossa estação sericícola uma das mais completas do país e está aparelhada para desempenhar o seu papel de propulsora da indústria sérica do Espírito Santo.
1938: Transformações
Com o tempo, a Estação Sericícola de Vargem Alta evoluiu. Em 1938, a Reforma da Secretaria da Agricultura trouxe mudanças significativas. A estação deixou de ser apenas um local de produção e se transformou em um “Serviço de Sericicultura”. Agora, suas finalidades iam além dos casulos: disseminar conhecimento, treinar produtores e incentivar pesquisas.
As raças de casulos na Sericicultura de Vargem Alta: fios e beleza diferenciadas
Na tecitura delicada da Sericicultura, os casulos eram como pequenos cofres que guardam segredos de seda. No Espírito Santo, o Serviço de Sericicultura desvendou esses segredos, trabalhando com diferentes raças de casulos, por meio de estudos e testes:
Casulos brancos reproduziram: Branco Chinês, Branco Japonês, Branco Novo e Branco Princesa do Oeste.
Casulos Amarelos reproduziram: Amarelo Esférico e Amarelo Cintado.
Casulos Ouro reproduziram: Ouro Brasil, Ouro Charle, Ouro Oval e Ouro Chinês
Destacou-se, nesta época, o casulo Ouro Brasil, pois, além de sua beleza diferenciada, a seda desses casulos tinha um propósito especial: era utilizada exclusivamente para fins médicos em centros cirúrgicos. Suas fibras eram habilmente transformadas em suturas, costurando vidas e curando feridas.
Tecitura dos fios
Entre as máquinas e com a delicadeza das mãos das 250 moças que que se dedicavam ao trabalho dos processos da tecitura dos fios acontecia a mágica da sericicultura, onde os fios de seda são tecidos com paciência e destreza, transformando casulos em lindos e elegantes tecidos por etapas.
A linda vargem-altense, dona Maria da Penha Oliveira Salles, de 93 anos, trabalhou na fábrica e detalha, de forma suave e saudosa, todo o processo que envolvia a produção da seda:
Imersão nos segredos da água quente: os casulos, como pequenos cofres de seda, eram mergulhados em água quente. Esse banho delicado amolecia as fibras e permitia que os fios se soltassem.
Fiação:Após o banho, os casulos passavam pela fiação. As moças habilidosas transformavam os fios brutos em filamentos finos e uniformes.
Encanadeira (o carretel da Seda): os fios eram então colocados na encanadeira, que era semelhante a carretéis. Ali, eles esperavam pacientemente, prontos para serem tecidos.
Remissa (tecendo o tecido): a remissa era o próximo passo. Nesse processo, os fios eram habilmente entrelaçados em teares, formando o tecido de seda. Cada movimento era uma dança de dedos e fios.
Onde a magia acontece: no tear, as moças teciam o tecido propriamente dito. Os fios se cruzavam, criando padrões e texturas. Era como compor uma sinfonia de seda.
Da Fábrica São Paulo: por fim, o pano de seda era levado à Fábrica São Paulo, em São Paulo. Lá, ele passava por alvejamento e estamparia. As cores ganhavam vida, e a seda se transformava em obras de arte têxtil.
Dona Penha se lembra que todas as funcionárias da fábrica “éramos amigas. Era uma família só”. Ela pontua, ainda, uma memória que a faz sorrir de emoção e de alegria: “em nosso horário de almoço, comíamos muito rápido e íamos para a praça de Vargem Alta, onde brincávamos de chicotinho queimado”.
E, assim, entre água quente e teares, as moças escreviam histórias de beleza e tradição. A seda, com suas cores vibrantes e toque suave, era mais do que um tecido; era um pedaço de poesia, que envolvia mãos delicadas de 250 moças fiandeiras.
Algumas nomenclaturas da Sericícola de Vargem Alta
O vargem-altense Antônio Fernando Falcão de Gouvêa, de 66 anos, que prestava serviços à Estação Sericicultura, relata fatos históricos importantes da indústria: até 1938, ela era conhecida como Sericícola, passando, em seguida, a ser denominada Estação Sericicultura. A partir de 1970, até meados de 1973, tornou-se Sericicultura Fiandeira. De acordo com Fernando, de 1982 até 1990, aproximadamente, ela se tornou Encapa.
Neste contexto, conforme afirma Celenita Duarte Correia Campos, filha de Sarah Duarte Correia (que trabalhou durante muitos anos na Sericícola), a fábrica encerrou as suas atividades em 1973, aproximadamente. E todo o espaço ficou fechado por um período de cinco anos, mais ou menos.

Em seguida, foi reaberto com plantações de amoreiras e criação de bichos-da-seda. A partir deste momento, vários produtores da região vargem-altense se interessaram por essa cultura, passando a plantá-las em suas propriedades.
No entanto, nesta nova era da Sericícola já não se produzia o tecido na região. Toda a produção das lagartas era enviada para outras estações. Sericiculturas.
Fernando relembra, ainda, que a indústria começou a ter a sua produção enfraquecida em 1992, tendo, logo, encerrado as suas atividades. Segundo informa, muitas das funcionárias foram transferidas para outras estações da seda do Espírito Santo; e outras pediram demissão.
Em suas memórias saudosas, Fernando afirma que “a Sericícola era o cartão postal de Vargem Alta. Era uma referência.”
Memórias nostálgicas da Sericícola
A dona Haid Benedito Falcão Gouvea, de 94 anos, moradora de Vargem Alta, que foi funcionária na casa do chefe da Estação, em 1946, aproximadamente, relata, entre sorrisos e olhares saudosos, que em volta da Sericícola havia um lindo e enorme jardim repleto de roseiras. Nele, “as moças passeavam com os seus namorados”.

Nota-se que, além de trabalhos, produção de fios e de tecidos de seda, a poesia adornava a harmonia humana e paisagística da Sericícola.
A dona Maria da Penha Oliveira Salles guarda, com orgulho, um pedaço do tecido da seda produzida por suas lindas e delicadas mãos.
Ela afirma que, no auge das produções da seda, a Miss Brasil da época foi uma das primeiras a usar vestidos do tecido fabricado em Vargem Alta.

Dona Maria da Penha guarda com saudosismo, com muito carinho e orgulho um pedaço do tecido (seda) que ajudou a produzir nos anos vindouros da fábrica Sericicultura.
Veja o vídeo abaixo e note a qualidade do tecido produzido e guardado por vários anos:
Rejane de Almeida relembra que, em sua infância, durante as suas férias (quando ela ainda morava e estudava no Rio de Janeiro) visitava a sua avó em Vargem Alta. E aproveitava para sempre visitar a Sericícola e os seus arredores. “Para mim, o lugar, além de muito bonito, me proporcionava diversão”, afirma.
Fios que tecem destinos
Entre os casulos e as amoreiras, Vargem Alta começou a traçar a sua própria história. Os delicados fios de seda, produzidos com esmero, não apenas vestiram corpos, mas também teceram laços sociais e econômicos. A sericicultura, outrora tradição europeia, tornou-se indissociável da identidade dessa região serrana.
E assim, como um bordado minucioso, a história da Sericicultura de Vargem Alta nos ensina que os mais delicados fios podem tecer destinos sólidos e duradouros em suas belas histórias.
Sericicultura: o seu fim não apagou a sua história
Assim como as estações do ano, a história das grandes empresas também segue seu ciclo natural: começo, meio e, eventualmente, fim. A Sericicultura de Vargem Alta não escapou dessa trajetória. Seus dias de apogeu podem ter ficado para trás, mas o que ela deixou para trás é um legado que permanece entrelaçado com a paisagem e a memória da região.
Fontes de pesquisas:
Fotos:
Arquivo pessoal de Dona Maria da Penha Oliveira Salles
Arquivo pessoal de Heloísa Marcelo de Oliveira Abu’ Dioan
Arquivo pessoal de Celenita Duarte Correira Campos
Arquivo pessoal de Márcia Gouveia
Arquivo pessoal de Heloísa Marcelo de Oliveira Abu’ Dioan
Referências:
(9) VARGEM ALTA(ES), ONTEM, HOJE E SEMPRE | Facebook
Bicho-da-seda: ciclo de vida e produção da seda – eCycle
História da Seda – Origem do Tecido de Seda (pandasilk.com)