A juventude do distrito de Jaciguá, no início da década de 1970, queria mesmo era dançar. Todo ano acontecia a festa de São João Batista. Lá, a música misturava desde canções religiosas até apresentações do Jongo, dentro da programação da festa do padroeiro. Durante o ano, porém, entre o trabalho na lavoura e a frequência semanal nas missas da paróquia São João Batista, sobrava um espaço para ir ao baile do salão paroquial, autorizado pelo próprio padre Domingos Altoé. Um ambiente de lazer muito respeitoso, diga-se de passagem.
Uma pena que, em 1974, o baile foi desautorizado pelo novo padre substituto. A frustração inicial deu lugar a uma ideia: “vamos construir uma cabana onde possamos continuar a dançar e nos divertir”. A juventude fez mutirão. E, perto do campo de futebol, montaram uma danceteria improvisada, de bambus, eucaliptos e sapês Chamada simplesmente de “Cabana”, lá dentro tocavam duas caixas de som potentes e um toca-discos Sonata, top da época. Quem ficava de frente era o saudoso Milton Jacinto.
Por uns anos tudo ficou bem, mas para construir a empresa de mármore do lado do campo, tiveram que desmanchar a Cabana, pois ficava no terreno da empresa. Mais uma vez a juventude de Jaciguá ficava frustrada por não ter um local para se divertir.
A Chica, empregada do senhor José Faro, observou tudo isso que estava acontecendo no povoado. Numa das vezes que o seu patrão veio do Rio de Janeiro para Jaciguá, ela disse:
– Poxa, Seu José, tá tão triste aqui em Jaciguá, sem lugar pra dançar, sem lugar pra gente se divertir. Será que vai ficar assim desse jeito?
Com aquela fala da Chica, surgiu a ideia de aproveitar um imóvel adquirido por ele, na praça de Jaciguá. Lá ficava a padaria, mas, por muitos anos, o imóvel se encontrava fechado. Para a empreitada, colocou de frente novamente Milton Jacinto.
Reformaram o local, colocaram um banheiro e aproveitaram o grande salão para ser o palco da dança. As caixas de som e o toca-discos Sonata novamente foram utilizados no novo local. Para o nome, o senhor Faro sugeriu “Dance Chica”, para homenagear sua empregada que lhe rendeu a ideia.
Calhou um emparelhamento dos astros: quando Jaciguá carecia de uma danceteria, na mesma época, fazia sucesso a Disco Music e a novela da Globo, Dancin’ Days. O sucesso foi garantido. As pessoas vinham de várias localidades para curtir o Dance Chica: Gironda, Soturno, Vargem Alta, Cachoeiro de Itapemirim, Prosperidade. Algumas vezes, até a pé. Os bailes que aconteciam no sábado, no auge da danceteria, também aconteciam aos domingos, algumas vezes, até a noite.
Eis que no carnaval de 1980, o primo do senhor Faro, que era ator da Globo, perguntou a ele sobre um lugar para sair da badalação do Rio de Janeiro. Seu José falou sobre Jaciguá, chamando-o para ir lá descansar. Vieram ele e a namorada. Chegando no distrito, a festa de carnaval acontecia no Dance Chica. Os dois jovens não se aquietaram e aproveitaram a festança. Partiram para dançar no meio daquela gente desconhecida deles, mas que os conheciam diretamente das novelas. Naquele dia, as paredes do Dance Chica receberam os autógrafos de Stênio Garcia e Clarice Piovesan.
A juventude continuou dançando até depois que o Dance Chica fechou, no final da década de 1980, já com o declínio da Dance Music. Foi aí que surgiram outras danceterias, como o Rancho Fundo, mais focado na música sertaneja e no forró. No intervalo do trabalho e das obrigações cristãs, o jovem dessa época espantava o frio característico da região dançando noite a dentro.







